Pesquisa sobre relacionamentos

Apps de namoro, casamentos e onde procurar parceira: o que os dados dizem

Pesquisa feita em 18/10/2026. Prioridade para fontes primárias (artigos revisados por pares, relatórios originais de pesquisa, IBGE). Quando um número não pôde ser verificado na fonte original, isso está dito no texto.


TL;DR

  1. “A maioria dos casamentos começa em app”: a frase é exagerada. O dado mais citado é do estudo de Stanford (HCMST). Ele mostra que 39% dos casais heterossexuais americanos que se conheceram em 2017 se conheceram online. Online virou a forma mais comum (pluralidade), mas não a maioria. Esse número vale para casais (incluindo namoro), não só casamentos, e só para os EUA (Rosenfeld, Thomas & Hausen 2019, PNAS). Números acima de 50% para 2020–2022 circulam em sites e no Reddit, mas vêm de amostras minúsculas e não foram publicados em artigo revisado (detalhes abaixo).
  2. Considerando todos os casais existentes hoje, e não só os recém-formados, a fatia é bem menor. Nos EUA, 10% dos adultos com parceiro conheceram o parceiro em site ou app. Entre os menores de 30 anos, são 20% (Pew 2023). Num estudo com 50 países, 16% conheceram o parceiro online e 21% nas relações iniciadas depois de 2010 (Kowal et al. 2025).
  3. Qualidade e duração: não há evidência forte de que relações de app sejam piores ou melhores. Os resultados variam conforme o estudo:
    • EUA, HCMST (dados longitudinais, sem conflito de interesse): a forma como o casal se conheceu não prevê término. Casais que se conheceram online casam mais rápido (Rosenfeld 2017).
    • EUA, Cacioppo 2013 (financiado pela eHarmony): casamentos iniciados online tiveram um pouco menos de separação (~6,0% vs. 7,7%) e satisfação levemente maior (5,64 vs. 5,48) (PNAS).
    • 50 países, 2025: quem se conheceu online relata satisfação e compromisso um pouco menores, com efeito pequeno a moderado (Kowal et al. 2025).
    • Suíça: casais formados por app não diferem em satisfação (Potarca 2020, PLOS ONE).
  4. Brasil: não encontrei pesquisa representativa sobre onde os casais brasileiros se conhecem. Os dados disponíveis são estes:
    • 23% dos brasileiros com smartphone já tiveram algum encontro por app, e 29% na faixa de 16–29 anos (Mobile Time/Opinion Box 2025).
    • Os homens casam em média aos 31,5 anos e as mulheres aos 29,3 (solteiros, sexos diferentes).
    • 47,5% dos divórcios de 2024 encerraram casamentos com menos de 10 anos (IBGE, Registro Civil 2024).
  5. Para um homem de 21 anos, os apps são um mercado desfavorável. Eles têm mais homens que mulheres, e os homens recebem muito menos matches e mensagens. Uma combinação faz mais sentido:
    • ambientes offline recorrentes: faculdade, rede de amigos, atividades em grupo;
    • apps como canal complementar, e não exclusivo.

1. “A maioria dos casais se conhece em apps” é verdade?

1.1 O dado original: Stanford/HCMST (EUA)

O artigo Rosenfeld, Thomas & Hausen (2019), PNAS 116(36):17753-17758 (PDF do autor) usou a pesquisa How Couples Meet and Stay Together (HCMST) de 2009 e 2017, com amostra representativa de adultos americanos. As conclusões principais são estas:

Tabela 1: como casais heterossexuais americanos se conheceram (ano em que se conheceram) Fonte: Tabela 1 de Rosenfeld et al. 2019, HCMST 2009+2017, N=5.421. As categorias não são exclusivas e a soma passa de 100%.

Como se conheceram 1995 2017
Online 2% 39%
Por amigos 33% 20%
Bar/restaurante* 19% 27%
Como colegas de trabalho 19% 11%
Pela família 15% 7%
Escola (ensino fundamental/médio) 10% 5%
Faculdade 9% 4% (queda não significativa)
Vizinhos 8% 3%
Igreja 7% 4%

* Os autores explicam que a alta de “bar/restaurante” depois de 2010 se deve inteiramente a casais que se conheceram online e marcaram o primeiro encontro num bar. Sem eles, bar/restaurante estava em queda (PDF, p. 4).

O mesmo artigo traz mais dois números:

1.2 E os números de “53%”, “60%” para 2020–2022?

1.3 Fluxo vs. estoque: por que outros números são bem menores

O 39% da HCMST mede casais recém-formados num certo ano (fluxo). As pesquisas abaixo medem todos os casais existentes (estoque), que incluem muita gente que se conheceu antes dos apps.

Fonte População Conheceu o parceiro online
Pew Research 2023 (jul/2022, n=6.034, EUA) Todos os adultos com parceiro 10%
idem Adultos com parceiro < 30 anos 20%
idem Adultos LGB com parceiro 24%
Kowal et al. 2025, Telematics and Informatics (50 países, n=6.646 com parceiro) Todos 16% (de 8% em Gana a 33% na Polônia)
idem Relações iniciadas após 2010 21%
Cacioppo et al. 2013, PNAS (EUA, n=19.131) Pessoas que casaram entre 2005 e 2012 “mais de um terço” (~35%). Desse grupo, ~45% em sites de namoro (release)

Conclusão da seção 1:


2. Qualidade e duração: relações de app são piores?

2.1 Os principais estudos

Estudo País/dados Resultado Qualidade da evidência
Rosenfeld 2017, Sociological Science 4:490-510 EUA, HCMST 2009–2015, longitudinal (acompanhou casais por 6 anos) Conhecer-se online não prevê término. Online, sobretudo por site de namoro, prevê transição mais rápida para o casamento. O autor afirma que não mede efeito causal. Boa: amostra representativa, acompanhamento ao longo do tempo, financiamento público (NSF)
Rosenfeld et al. 2019 (nota 6 e 7) EUA, HCMST 2017 retrospectivo Como o casal se conheceu não tem efeito significativo sobre o risco de término, controlando pela década. “A única diferença que encontramos […] é a velocidade de transição para o casamento.” Boa
Cacioppo et al. 2013, PNAS EUA, 19.131 casados de 2005 a 2012 Online: 5,96% separados/divorciados vs. 7,67% offline; satisfação 5,64 vs. 5,48. As diferenças persistiram após controles demográficos (release da UChicago/ScienceDaily) Média, com conflito de interesse. Pesquisa encomendada pela eHarmony; Cacioppo era consultor científico pago da eHarmony e o coautor Gonzaga é ex-diretor do eHarmony Labs. Os autores dizem ter adotado supervisão estatística independente. Efeitos pequenos, e os casamentos tinham no máximo ~7 anos.
Kowal et al. 2025 50 países, painéis online (Syno International) Quem se conheceu online relata menor satisfação (d=0,43), intimidade (d=0,35), paixão (d=0,37) e compromisso (d=0,51). O padrão se repete em quase todos os países. Média. Os autores chamam a amostra de “nacionalmente representativa”, mas ela foi recrutada por painel online com cotas, e eles mesmos reconhecem viés de seleção. O desenho é transversal (sem causalidade) e trata online/offline de forma binária (app = rede social).
Potarca 2020, PLOS ONE Suíça, pesquisa oficial (Family and Generations Survey 2018), 3.245 pessoas com relação iniciada nos últimos 10 anos Casais de app (4,1% da amostra): sem diferença de satisfação com a relação ou com a vida; intenção maior de morar junto; mulheres com intenção maior de ter filhos; mais mistura educacional; vivem mais longe uns dos outros Boa como dado oficial, mas o subgrupo de app é pequeno (104 pessoas) e o desenho é transversal

2.2 E os locais offline (bar, igreja, faculdade…)?

2.3 Por que é tão difícil responder? (efeitos de seleção)

Resumo da seção 2:


3. Brasil

3.1 Como os brasileiros se conhecem

Já teve encontro com alguém conhecido em app de relacionamento %
Total (donos de smartphone) 23%
16–29 anos 29%
30–49 anos 25%
50+ 14%

3.2 Casamento e divórcio no Brasil (IBGE, Estatísticas do Registro Civil 2024)

Fonte: apresentação oficial do IBGE, Registro Civil 2024

Indicador Valor
Casamentos civis em 2024 948.925 (+0,9% vs. 2023). Desses, 936.738 entre pessoas de sexos diferentes e 12.187 do mesmo sexo
Média anual 2015–2019 1.076.280. Ou seja, casa-se menos que antes da pandemia
Idade média ao casar, solteiros de sexos diferentes, 2024 Homens 31,5; mulheres 29,3
Mesma idade em 2014 Homens 29,8; mulheres 27,1
Mesma idade em 2004 Homens ~27,8; mulheres ~24,9 (lidos do gráfico)
Divórcios em 2024 428.301 (−2,8% vs. 2023, quando foram 440.827)
Tempo médio entre casamento e divórcio 13,8 anos (2024)
Divórcios de casamentos com menos de 10 anos 47,5% em 2024 (43,6% em 2014)
Idade média ao divorciar Homens 44,5; mulheres 41,6

Limitação importante: o IBGE não registra como o casal se conheceu. Por isso não há como comparar divórcio de casais de app e casais offline no Brasil. Também não há dado oficial sobre uniões estáveis não registradas, que são muito comuns no país.

3.3 Proporção de homens e mulheres nos apps no Brasil


4. A dinâmica dos apps para homens (dados fora do Brasil)

Achado Fonte Observações
57% dos homens que usaram apps nos últimos 5 anos acham que não receberam mensagens suficientes, contra 24% das mulheres. 30% das mulheres dizem receber demais (6% dos homens). Pew 2020 EUA
64% dos homens se sentiram inseguros pela falta de mensagens (40% das mulheres). 54% das mulheres se sentiram sobrecarregadas (25% dos homens). Pew 2023 EUA, 2022
Mais homens que mulheres já usaram apps (34% vs. 27%). 53% dos menores de 30 já usaram. Pew 2023 EUA
56% das mulheres usuárias com menos de 50 anos receberam imagens ou mensagens sexuais não solicitadas. 43% continuaram sendo contatadas depois de dizer que não tinham interesse. Pew 2023, relatório completo Ajuda a entender por que as mulheres são mais seletivas e cautelosas
No Tinder, perfis masculinos de teste deram match com 0,6% de quem curtiram; perfis femininos, com 10,5%. 86% dos matches dos perfis masculinos vieram de outros homens. Só 7% dos matches masculinos mandaram mensagem (21% dos femininos). Tyson et al. 2016, ASONAM / arXiv Evidência fraca: só 14 perfis falsos com fotos de banco de imagens, em Londres, em 2016. Serve para ilustrar a assimetria, não como taxa real
Homens e mulheres mandam mensagem para pessoas em média ~25% “mais desejáveis” que eles mesmos, e a chance de resposta cai fortemente quanto maior essa diferença Bruch & Newman 2018, Science Advances 4 cidades dos EUA, dados de um site de namoro gratuito, 2014
Entre usuários de 18–29 anos na Suíça, casais de app tinham menos parceiros da mesma idade e mais pares com o homem mais velho Potarca 2020 Sugere que, nos apps, homens jovens competem com homens mais velhos pelas mesmas mulheres

5. Limitações

O que está bem estabelecido e o que é fraco ou contestado

Bem estabelecido Fraco ou contestado
Nos EUA, online é o canal mais comum para casais novos desde ~2013 (39% em 2017) “Mais de 50% / maioria” dos casais hoje
Isso é pluralidade, não maioria. No estoque de casais, a fatia é bem menor (10% EUA; 16% em 50 países) Relações online seriam melhores (Cacioppo, financiado pela eHarmony)
Como o casal se conheceu tem efeito pequeno ou nulo sobre o término (HCMST, longitudinal) Relações online seriam piores (Kowal 2025: efeitos pequenos a moderados, painel online, transversal)
Casais que se conhecem online tendem a casar mais rápido (EUA) Ranking de “melhores lugares” offline (igreja > bar etc.)
Nos apps, homens recebem muito menos mensagens e matches que mulheres (Pew, várias pesquisas) Proporção exata de homens e mulheres no Tinder Brasil
No Brasil, as pessoas casam cada vez mais tarde (H 31,5 / M 29,3) e quase metade dos divórcios encerra casamentos de menos de 10 anos (IBGE) Qualquer número sobre “% de casais brasileiros que se conheceram em app”

6. O que isso significa pra você (homem, 21 anos, Brasil)

Estas são inferências a partir dos dados acima, não conclusões diretas de um estudo.

  1. Não há um “canal mágico” para encontrar uma boa esposa. Como o casal se conheceu tem efeito pequeno ou nulo na duração. O que pesa mais é com quem você fica (compatibilidade, valores, momento de vida), não onde.
  2. Para alguém da sua idade, o offline ainda é a maior parte do jogo. Nos EUA, 80% dos menores de 30 com parceiro não o conheceram online (Pew 2023). No Brasil, 29% dos jovens de 16–29 já tiveram algum encontro por app, o que fica bem longe de “a maioria se casa via app”.
  3. Os apps são um mercado desfavorável para homens jovens.
    • Há mais homens que mulheres: ~71% de homens no Tinder Brasil, segundo estimativa fraca.
    • Os homens recebem bem menos matches e mensagens (Pew; Tyson et al.).
    • Aos 21 anos, você também compete com homens mais velhos pelas mulheres da sua faixa (Potarca 2020).
    • Use apps se quiser, mas como complemento. Não espere que funcionem para todos do mesmo jeito.
  4. Os canais offline que mais rendem para quem tem 20 e poucos anos são ambientes recorrentes com pessoas da mesma idade:
    • faculdade e cursos;
    • rede de amigos (amigos de amigos);
    • atividades em grupo com interesse em comum (esporte coletivo, voluntariado, igreja ou grupo religioso se fizer sentido pra você, grupos de hobby).

    O mecanismo é a convivência repetida e o fato de alguém poder “apresentar” você. Foi exatamente esse papel dos amigos que os apps substituíram (Rosenfeld et al. 2019).

    • Ressalva: na HCMST, “faculdade” caiu para 4% dos casais, mas esse número é sobre todas as idades. Para quem está na faculdade, ela concentra muitas pessoas solteiras da mesma faixa etária.
  5. Bar e balada: no estudo de Cacioppo, ficou entre os de menor satisfação (5,39 de 7, junto com trabalho, 5,38, e encontro às cegas, 5,31), contra 5,59 na escola/faculdade. A diferença é pequena, e a taxa de separação não variou por local. E, nos EUA, o bar só “cresceu” porque virou o local do primeiro encontro de quem se conheceu online.
  6. Não há pressa do ponto de vista estatístico. A idade média do homem brasileiro ao casar é 31,5 anos (IBGE 2024). Você tem, em média, uma década pela frente.
  7. Se usar apps, vale o que tem respaldo:
    • Mirar pessoas muito “acima” na hierarquia de desejabilidade do app reduz muito a chance de resposta (Bruch & Newman 2018).
    • Mensagens curtas e genéricas, com mediana de 12 caracteres entre homens no estudo de Tyson, são a regra. Diferenciar-se com algo pessoal é uma inferência razoável, mas não testada nesses estudos.
    • Apps voltados para relacionamento sério e com perfis mais completos parecem ter um público mais orientado a compromisso. Isso é inferência: o dado de Rosenfeld é que sites de namoro (e não online em geral) previram casamento mais rápido.

Fontes principais (primárias)