Apps de namoro, casamentos e onde procurar parceira: o que os dados dizem
Pesquisa feita em 18/10/2026. Prioridade para fontes primárias (artigos revisados por pares, relatórios originais de pesquisa, IBGE). Quando um número não pôde ser verificado na fonte original, isso está dito no texto.
TL;DR
- “A maioria dos casamentos começa em app”: a frase é exagerada. O dado mais citado é do estudo de Stanford (HCMST). Ele mostra que 39% dos casais heterossexuais americanos que se conheceram em 2017 se conheceram online. Online virou a forma mais comum (pluralidade), mas não a maioria. Esse número vale para casais (incluindo namoro), não só casamentos, e só para os EUA (Rosenfeld, Thomas & Hausen 2019, PNAS). Números acima de 50% para 2020–2022 circulam em sites e no Reddit, mas vêm de amostras minúsculas e não foram publicados em artigo revisado (detalhes abaixo).
- Considerando todos os casais existentes hoje, e não só os recém-formados, a fatia é bem menor. Nos EUA, 10% dos adultos com parceiro conheceram o parceiro em site ou app. Entre os menores de 30 anos, são 20% (Pew 2023). Num estudo com 50 países, 16% conheceram o parceiro online e 21% nas relações iniciadas depois de 2010 (Kowal et al. 2025).
- Qualidade e duração: não há evidência forte de que relações de app sejam piores ou melhores. Os resultados variam conforme o estudo:
- EUA, HCMST (dados longitudinais, sem conflito de interesse): a forma como o casal se conheceu não prevê término. Casais que se conheceram online casam mais rápido (Rosenfeld 2017).
- EUA, Cacioppo 2013 (financiado pela eHarmony): casamentos iniciados online tiveram um pouco menos de separação (~6,0% vs. 7,7%) e satisfação levemente maior (5,64 vs. 5,48) (PNAS).
- 50 países, 2025: quem se conheceu online relata satisfação e compromisso um pouco menores, com efeito pequeno a moderado (Kowal et al. 2025).
- Suíça: casais formados por app não diferem em satisfação (Potarca 2020, PLOS ONE).
- Brasil: não encontrei pesquisa representativa sobre onde os casais brasileiros se conhecem. Os dados disponíveis são estes:
- 23% dos brasileiros com smartphone já tiveram algum encontro por app, e 29% na faixa de 16–29 anos (Mobile Time/Opinion Box 2025).
- Os homens casam em média aos 31,5 anos e as mulheres aos 29,3 (solteiros, sexos diferentes).
- 47,5% dos divórcios de 2024 encerraram casamentos com menos de 10 anos (IBGE, Registro Civil 2024).
- Para um homem de 21 anos, os apps são um mercado desfavorável. Eles têm mais homens que mulheres, e os homens recebem muito menos matches e mensagens. Uma combinação faz mais sentido:
- ambientes offline recorrentes: faculdade, rede de amigos, atividades em grupo;
- apps como canal complementar, e não exclusivo.
1. “A maioria dos casais se conhece em apps” é verdade?
1.1 O dado original: Stanford/HCMST (EUA)
O artigo Rosenfeld, Thomas & Hausen (2019), PNAS 116(36):17753-17758 (PDF do autor) usou a pesquisa How Couples Meet and Stay Together (HCMST) de 2009 e 2017, com amostra representativa de adultos americanos. As conclusões principais são estas:
- O abstract diz que, para casais heterossexuais nos EUA, “meeting online has become the most popular way couples meet, eclipsing meeting through friends for the first time around 2013”.
- A palavra é “most popular” (pluralidade), e não “maioria”.
- “Casal” inclui casados, casais que moram juntos sem casar e namoros sem coabitação. Segundo os autores, os resultados não mudam quando se olha só para casados.
Tabela 1: como casais heterossexuais americanos se conheceram (ano em que se conheceram)
Fonte: Tabela 1 de Rosenfeld et al. 2019, HCMST 2009+2017, N=5.421. As categorias não são exclusivas e a soma passa de 100%.
| Como se conheceram |
1995 |
2017 |
| Online |
2% |
39% |
| Por amigos |
33% |
20% |
| Bar/restaurante* |
19% |
27% |
| Como colegas de trabalho |
19% |
11% |
| Pela família |
15% |
7% |
| Escola (ensino fundamental/médio) |
10% |
5% |
| Faculdade |
9% |
4% (queda não significativa) |
| Vizinhos |
8% |
3% |
| Igreja |
7% |
4% |
* Os autores explicam que a alta de “bar/restaurante” depois de 2010 se deve inteiramente a casais que se conheceram online e marcaram o primeiro encontro num bar. Sem eles, bar/restaurante estava em queda (PDF, p. 4).
O mesmo artigo traz mais dois números:
- Entre casais do mesmo sexo que se conheceram em 2017, ~65% se conheceram online.
- Nos EUA, o uso de app no celular entre quem namora pela internet subiu de 30% (2013) para 54% (2015), segundo dados da Pew citados no artigo.
1.2 E os números de “53%”, “60%” para 2020–2022?
- A HCMST 2017 teve dois acompanhamentos (follow-ups) com os mesmos entrevistados:
- Os casais formados depois de 2017 são poucos e vêm de um painel que envelhece, então não representam os casais novos da população.
- O gráfico viral (66% em 2020, 58% em 2021) circula a partir de um post no Reddit, comentado neste texto. O próprio comentário observa que os pontos recentes se baseiam em pouquíssimas observações.
- Não encontrei artigo revisado por pares com esses números. Trate-os como não verificados.
1.3 Fluxo vs. estoque: por que outros números são bem menores
O 39% da HCMST mede casais recém-formados num certo ano (fluxo). As pesquisas abaixo medem todos os casais existentes (estoque), que incluem muita gente que se conheceu antes dos apps.
| Fonte |
População |
Conheceu o parceiro online |
| Pew Research 2023 (jul/2022, n=6.034, EUA) |
Todos os adultos com parceiro |
10% |
| idem |
Adultos com parceiro < 30 anos |
20% |
| idem |
Adultos LGB com parceiro |
24% |
| Kowal et al. 2025, Telematics and Informatics (50 países, n=6.646 com parceiro) |
Todos |
16% (de 8% em Gana a 33% na Polônia) |
| idem |
Relações iniciadas após 2010 |
21% |
| Cacioppo et al. 2013, PNAS (EUA, n=19.131) |
Pessoas que casaram entre 2005 e 2012 |
“mais de um terço” (~35%). Desse grupo, ~45% em sites de namoro (release) |
Conclusão da seção 1:
- Nos EUA, online é o canal mais comum para casais novos desde ~2013. Em 2017 representava 39%, não a maioria.
- Entre os jovens americanos com parceiro, 4 em cada 5 não conheceram o parceiro online.
- Fora dos EUA, as fatias medidas são menores.
2. Qualidade e duração: relações de app são piores?
2.1 Os principais estudos
| Estudo |
País/dados |
Resultado |
Qualidade da evidência |
| Rosenfeld 2017, Sociological Science 4:490-510 |
EUA, HCMST 2009–2015, longitudinal (acompanhou casais por 6 anos) |
Conhecer-se online não prevê término. Online, sobretudo por site de namoro, prevê transição mais rápida para o casamento. O autor afirma que não mede efeito causal. |
Boa: amostra representativa, acompanhamento ao longo do tempo, financiamento público (NSF) |
| Rosenfeld et al. 2019 (nota 6 e 7) |
EUA, HCMST 2017 retrospectivo |
Como o casal se conheceu não tem efeito significativo sobre o risco de término, controlando pela década. “A única diferença que encontramos […] é a velocidade de transição para o casamento.” |
Boa |
| Cacioppo et al. 2013, PNAS |
EUA, 19.131 casados de 2005 a 2012 |
Online: 5,96% separados/divorciados vs. 7,67% offline; satisfação 5,64 vs. 5,48. As diferenças persistiram após controles demográficos (release da UChicago/ScienceDaily) |
Média, com conflito de interesse. Pesquisa encomendada pela eHarmony; Cacioppo era consultor científico pago da eHarmony e o coautor Gonzaga é ex-diretor do eHarmony Labs. Os autores dizem ter adotado supervisão estatística independente. Efeitos pequenos, e os casamentos tinham no máximo ~7 anos. |
| Kowal et al. 2025 |
50 países, painéis online (Syno International) |
Quem se conheceu online relata menor satisfação (d=0,43), intimidade (d=0,35), paixão (d=0,37) e compromisso (d=0,51). O padrão se repete em quase todos os países. |
Média. Os autores chamam a amostra de “nacionalmente representativa”, mas ela foi recrutada por painel online com cotas, e eles mesmos reconhecem viés de seleção. O desenho é transversal (sem causalidade) e trata online/offline de forma binária (app = rede social). |
| Potarca 2020, PLOS ONE |
Suíça, pesquisa oficial (Family and Generations Survey 2018), 3.245 pessoas com relação iniciada nos últimos 10 anos |
Casais de app (4,1% da amostra): sem diferença de satisfação com a relação ou com a vida; intenção maior de morar junto; mulheres com intenção maior de ter filhos; mais mistura educacional; vivem mais longe uns dos outros |
Boa como dado oficial, mas o subgrupo de app é pequeno (104 pessoas) e o desenho é transversal |
2.2 E os locais offline (bar, igreja, faculdade…)?
-
Cacioppo 2013, Tabela 2 do artigo original (verificado no PDF): satisfação conjugal média, numa escala de 1 a 7, entre quem continuava casado, por local onde se conheceram:
| Local offline |
Satisfação (1–7) |
n ponderado |
| Cresceram juntos |
5,67 |
873 |
| Escola/faculdade |
5,59 |
1.277 |
| Igreja/local de culto |
5,58 |
466 |
| Evento social com amigos |
5,56 |
1.133 |
| Amigos |
5,47 |
2.135 |
| Família |
5,43 |
769 |
| Outro |
5,42 |
944 |
| Bar/balada |
5,39 |
988 |
| Trabalho |
5,38 |
2.474 |
| Encontro às cegas |
5,31 |
299 |
| (Online, para comparação:) site de namoro |
5,69 |
2.782 |
| (Online) rede social |
5,72 |
1.301 |
| (Online) chat |
5,42 |
596 |
| (Online) “comunidade online” |
5,29 |
393 |
- As diferenças entre locais offline são estatisticamente significativas, mesmo controlando idade, renda, escolaridade, religião etc. (F(9, 11.466) = 3,87, p < 0,001). Mas são pequenas: toda a faixa vai de 5,31 a 5,67 numa escala de 7 pontos.
- Separação/divórcio não variou por local offline (p = 0,34; p = 0,56 com controles). Entre locais online, também não foi significativo após controles (p = 0,17). Ou seja, o local prevê um pouco a satisfação, mas não a chance de separar.
- Correção do que o release de imprensa sugeria: o pior online foi “comunidade online” (5,29), não “mundo virtual” (5,65, na média).
- Os próprios autores dizem que os efeitos “são compreensivelmente bem pequenos e não valem para todo mundo”, e que cobrem só os primeiros 6–7 anos de casamento (PNAS).
- HCMST (Rosenfeld): não encontrou efeito do como se conheceram sobre o término.
- Leitura honesta: não existe evidência robusta de que algum local específico (faculdade, igreja, trabalho, app) cause casamentos melhores. As diferenças observadas são pequenas e provavelmente refletem quem frequenta cada lugar (efeito de seleção).
2.3 Por que é tão difícil responder? (efeitos de seleção)
- Quem usa app difere de quem não usa em idade, renda, escolaridade, personalidade e intenção de casar.
- No estudo de Cacioppo, os casados via online eram mais velhos, empregados e de renda mais alta.
- No de Kowal, quem se conheceu online tinha menor nível socioeconômico e relações mais curtas.
- Rosenfeld sugere que o casamento mais rápido pode vir de pessoas “prontas para casar” que escolhem a internet, e não do efeito do app (Rosenfeld 2017).
- Viés de sobrevivência: pesquisas transversais só veem os casais que ainda estão juntos.
- Época: os estudos de 2013 e 2017 são quase todos da era dos sites (eHarmony, Match), anterior aos apps de swipe (Tinder é de 2012). Os dados de 2025 (Kowal) são mais recentes e menos favoráveis ao online. Isso pode refletir a mudança para apps, mas o estudo não separa app de rede social.
Resumo da seção 2:
- Bem estabelecido: nos EUA, como o casal se conheceu tem efeito pequeno ou nulo sobre a duração. Casais que se conhecem online tendem a casar mais rápido.
- Contestado: se relações online têm qualidade um pouco maior (Cacioppo, com conflito de interesse) ou um pouco menor (Kowal 2025). Os efeitos são pequenos nos dois sentidos.
3. Brasil
3.1 Como os brasileiros se conhecem
- Não encontrei pesquisa representativa (IBGE, Datafolha, Ipsos etc.) que pergunte onde os casais brasileiros se conheceram. Os números brasileiros que circulam sobre “X% dos casais se conheceram em app” geralmente vêm de pesquisas de empresas de app ou de sondagens sem metodologia publicada.
- O dado mais sólido que encontrei sobre uso de apps é o da Mobile Time/Opinion Box (abril/2025): 2.019 internautas com smartphone, entrevistados de 12 a 27 de março de 2025, margem de erro de 2,2 p.p.
| Já teve encontro com alguém conhecido em app de relacionamento |
% |
| Total (donos de smartphone) |
23% |
| 16–29 anos |
29% |
| 30–49 anos |
25% |
| 50+ |
14% |
- Entre quem já teve encontro por app, 43% citam o Tinder como o app mais usado. Não houve diferença significativa por gênero.
- A pesquisa mede ter tido um encontro, e não namoro ou casamento.
- Kowal et al. 2025 cobre 50 países, inclusive da América do Sul, mas não consegui confirmar se o Brasil está na amostra. A lista de países aparece só num mapa.
3.2 Casamento e divórcio no Brasil (IBGE, Estatísticas do Registro Civil 2024)
Fonte: apresentação oficial do IBGE, Registro Civil 2024
| Indicador |
Valor |
| Casamentos civis em 2024 |
948.925 (+0,9% vs. 2023). Desses, 936.738 entre pessoas de sexos diferentes e 12.187 do mesmo sexo |
| Média anual 2015–2019 |
1.076.280. Ou seja, casa-se menos que antes da pandemia |
| Idade média ao casar, solteiros de sexos diferentes, 2024 |
Homens 31,5; mulheres 29,3 |
| Mesma idade em 2014 |
Homens 29,8; mulheres 27,1 |
| Mesma idade em 2004 |
Homens ~27,8; mulheres ~24,9 (lidos do gráfico) |
| Divórcios em 2024 |
428.301 (−2,8% vs. 2023, quando foram 440.827) |
| Tempo médio entre casamento e divórcio |
13,8 anos (2024) |
| Divórcios de casamentos com menos de 10 anos |
47,5% em 2024 (43,6% em 2014) |
| Idade média ao divorciar |
Homens 44,5; mulheres 41,6 |
Limitação importante: o IBGE não registra como o casal se conheceu. Por isso não há como comparar divórcio de casais de app e casais offline no Brasil. Também não há dado oficial sobre uniões estáveis não registradas, que são muito comuns no país.
3.3 Proporção de homens e mulheres nos apps no Brasil
- O Match Group (dono do Tinder) não divulga a divisão por gênero dos usuários por país.
- A única estimativa para o Brasil que encontrei é da Start.io, uma rede de anúncios que infere o gênero a partir de sinais do aparelho e não faz pesquisa com usuários. Ela estima ~71% homens / ~29% mulheres entre usuários de Tinder no Brasil e ~76% de homens em SP e no RJ (Start.io).
- É uma estimativa comercial fraca. Use só como indício de que a proporção é desequilibrada.
4. A dinâmica dos apps para homens (dados fora do Brasil)
| Achado |
Fonte |
Observações |
| 57% dos homens que usaram apps nos últimos 5 anos acham que não receberam mensagens suficientes, contra 24% das mulheres. 30% das mulheres dizem receber demais (6% dos homens). |
Pew 2020 |
EUA |
| 64% dos homens se sentiram inseguros pela falta de mensagens (40% das mulheres). 54% das mulheres se sentiram sobrecarregadas (25% dos homens). |
Pew 2023 |
EUA, 2022 |
| Mais homens que mulheres já usaram apps (34% vs. 27%). 53% dos menores de 30 já usaram. |
Pew 2023 |
EUA |
| 56% das mulheres usuárias com menos de 50 anos receberam imagens ou mensagens sexuais não solicitadas. 43% continuaram sendo contatadas depois de dizer que não tinham interesse. |
Pew 2023, relatório completo |
Ajuda a entender por que as mulheres são mais seletivas e cautelosas |
| No Tinder, perfis masculinos de teste deram match com 0,6% de quem curtiram; perfis femininos, com 10,5%. 86% dos matches dos perfis masculinos vieram de outros homens. Só 7% dos matches masculinos mandaram mensagem (21% dos femininos). |
Tyson et al. 2016, ASONAM / arXiv |
Evidência fraca: só 14 perfis falsos com fotos de banco de imagens, em Londres, em 2016. Serve para ilustrar a assimetria, não como taxa real |
| Homens e mulheres mandam mensagem para pessoas em média ~25% “mais desejáveis” que eles mesmos, e a chance de resposta cai fortemente quanto maior essa diferença |
Bruch & Newman 2018, Science Advances |
4 cidades dos EUA, dados de um site de namoro gratuito, 2014 |
| Entre usuários de 18–29 anos na Suíça, casais de app tinham menos parceiros da mesma idade e mais pares com o homem mais velho |
Potarca 2020 |
Sugere que, nos apps, homens jovens competem com homens mais velhos pelas mesmas mulheres |
5. Limitações
- Quase toda a evidência de qualidade é dos EUA. No Brasil não existe dado representativo sobre onde os casais se conhecem nem sobre o desfecho por local.
- O 39% (HCMST 2017) é um ponto anual de uma amostra modesta: N total de 5.421 casais em todas as décadas, de modo que poucos se conheceram em 2017. Além disso, as categorias se sobrepõem (online + bar).
- “Online” ≠ “app”. O “online” da HCMST e de Cacioppo inclui sites, redes sociais, jogos e chats. Só Potarca separa apps.
- Causalidade: todos os estudos são observacionais. Diferenças de qualidade podem refletir quem escolhe cada canal, e não o canal em si.
- Conflito de interesse: Cacioppo 2013 foi financiado pela eHarmony. Pesquisas de empresas de app (Tinder, Match “Singles in America”, Happn) não foram usadas como evidência principal aqui.
- Os dados de 2020–2022 com mais de 50% online não estão publicados em periódico e vêm de subamostras pequenas.
- Proporção de gênero no Brasil: só há estimativa comercial, inferida e não verificada.
- O ranking por local em Cacioppo foi verificado no PDF original (Tabela 2), mas só mede satisfação de quem continuava casado; separação não variou por local. Não verifiquei se o Brasil está no estudo de 50 países.
O que está bem estabelecido e o que é fraco ou contestado
| Bem estabelecido |
Fraco ou contestado |
| Nos EUA, online é o canal mais comum para casais novos desde ~2013 (39% em 2017) |
“Mais de 50% / maioria” dos casais hoje |
| Isso é pluralidade, não maioria. No estoque de casais, a fatia é bem menor (10% EUA; 16% em 50 países) |
Relações online seriam melhores (Cacioppo, financiado pela eHarmony) |
| Como o casal se conheceu tem efeito pequeno ou nulo sobre o término (HCMST, longitudinal) |
Relações online seriam piores (Kowal 2025: efeitos pequenos a moderados, painel online, transversal) |
| Casais que se conhecem online tendem a casar mais rápido (EUA) |
Ranking de “melhores lugares” offline (igreja > bar etc.) |
| Nos apps, homens recebem muito menos mensagens e matches que mulheres (Pew, várias pesquisas) |
Proporção exata de homens e mulheres no Tinder Brasil |
| No Brasil, as pessoas casam cada vez mais tarde (H 31,5 / M 29,3) e quase metade dos divórcios encerra casamentos de menos de 10 anos (IBGE) |
Qualquer número sobre “% de casais brasileiros que se conheceram em app” |
6. O que isso significa pra você (homem, 21 anos, Brasil)
Estas são inferências a partir dos dados acima, não conclusões diretas de um estudo.
- Não há um “canal mágico” para encontrar uma boa esposa. Como o casal se conheceu tem efeito pequeno ou nulo na duração. O que pesa mais é com quem você fica (compatibilidade, valores, momento de vida), não onde.
- Para alguém da sua idade, o offline ainda é a maior parte do jogo. Nos EUA, 80% dos menores de 30 com parceiro não o conheceram online (Pew 2023). No Brasil, 29% dos jovens de 16–29 já tiveram algum encontro por app, o que fica bem longe de “a maioria se casa via app”.
- Os apps são um mercado desfavorável para homens jovens.
- Há mais homens que mulheres: ~71% de homens no Tinder Brasil, segundo estimativa fraca.
- Os homens recebem bem menos matches e mensagens (Pew; Tyson et al.).
- Aos 21 anos, você também compete com homens mais velhos pelas mulheres da sua faixa (Potarca 2020).
- Use apps se quiser, mas como complemento. Não espere que funcionem para todos do mesmo jeito.
- Os canais offline que mais rendem para quem tem 20 e poucos anos são ambientes recorrentes com pessoas da mesma idade:
- faculdade e cursos;
- rede de amigos (amigos de amigos);
- atividades em grupo com interesse em comum (esporte coletivo, voluntariado, igreja ou grupo religioso se fizer sentido pra você, grupos de hobby).
O mecanismo é a convivência repetida e o fato de alguém poder “apresentar” você. Foi exatamente esse papel dos amigos que os apps substituíram (Rosenfeld et al. 2019).
- Ressalva: na HCMST, “faculdade” caiu para 4% dos casais, mas esse número é sobre todas as idades. Para quem está na faculdade, ela concentra muitas pessoas solteiras da mesma faixa etária.
- Bar e balada: no estudo de Cacioppo, ficou entre os de menor satisfação (5,39 de 7, junto com trabalho, 5,38, e encontro às cegas, 5,31), contra 5,59 na escola/faculdade. A diferença é pequena, e a taxa de separação não variou por local. E, nos EUA, o bar só “cresceu” porque virou o local do primeiro encontro de quem se conheceu online.
- Não há pressa do ponto de vista estatístico. A idade média do homem brasileiro ao casar é 31,5 anos (IBGE 2024). Você tem, em média, uma década pela frente.
- Se usar apps, vale o que tem respaldo:
- Mirar pessoas muito “acima” na hierarquia de desejabilidade do app reduz muito a chance de resposta (Bruch & Newman 2018).
- Mensagens curtas e genéricas, com mediana de 12 caracteres entre homens no estudo de Tyson, são a regra. Diferenciar-se com algo pessoal é uma inferência razoável, mas não testada nesses estudos.
- Apps voltados para relacionamento sério e com perfis mais completos parecem ter um público mais orientado a compromisso. Isso é inferência: o dado de Rosenfeld é que sites de namoro (e não online em geral) previram casamento mais rápido.
Fontes principais (primárias)
- Rosenfeld, Thomas & Hausen (2019). Disintermediating your friends. PNAS 116(36). https://doi.org/10.1073/pnas.1908630116 · PDF
- Rosenfeld (2017). Marriage, Choice, and Couplehood in the Age of the Internet. Sociological Science 4:490-510. https://doi.org/10.15195/v4.a20
- Cacioppo et al. (2013). Marital satisfaction and break-ups differ across on-line and off-line meeting venues. PNAS 110(25). https://doi.org/10.1073/pnas.1222447110
- Potarca (2020). The demography of swiping right. PLOS ONE. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0243733
- Kowal et al. (2025). Meeting partners online is related to lower relationship satisfaction and love: Data from 50 countries. Telematics and Informatics 101:102309. https://doi.org/10.1016/j.tele.2025.102309
- Pew Research Center (2023). From Looking for Love to Swiping the Field. https://www.pewresearch.org/internet/2023/02/02/from-looking-for-love-to-swiping-the-field-online-dating-in-the-u-s/
- Pew Research Center (2020). The Virtues and Downsides of Online Dating. https://www.pewresearch.org/internet/2020/02/06/users-of-online-dating-platforms-experience-both-positive-and-negative-aspects-of-courtship-on-the-web/
- Bruch & Newman (2018). Aspirational pursuit of mates in online dating markets. Science Advances 4(8). https://doi.org/10.1126/sciadv.aap9815
- Tyson et al. (2016). A First Look at User Activity on Tinder. https://arxiv.org/abs/1607.01952
- IBGE. Estatísticas do Registro Civil 2024. https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/031ad256f70356ed66b25e4ff01767cc.pdf
- Mobile Time/Opinion Box (2025). Apps de relacionamento. https://www.mobiletime.com.br/noticias/22/04/2025/apps-de-relacionamento/
- Stanford HCMST 2017–2022 (dataset). https://data.stanford.edu/hcmst2017